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A comovente história de um génio que o mundo nunca aplaudiu
07.04.2018

RUI MIGUEL ABREU
Jornalista

10 anos, 10 álbuns, 10 singles. Nos anos 80, os Felt bateram à porta do mundo com um cabaz de enormes tesouros... só que o mundo não estava em casa. Três décadas depois, a justiça começa finalmente a ser feita com a reedição dos primeiros cinco álbuns do grupo inglês e o (re)encontro com um maravilhoso baú de canções (há também uma garbosa playlist aqui dentro). Não houve outra banda como os Felt. E não há génio como Lawrence, que à BLITZ concedeu uma entrevista exclusiva

Ao contrário dos permanentemente evocados Velvet Underground, os Felt, de Lawrence Hayward – que sempre assinou apenas com o nome próprio – não foram alvo de um culto celebratório que, geração após geração, os pudesse ter transformado em algo maior do que aquilo que foram em vida. Os 10 álbuns que editaram sem nunca terem quebrado as margens da década de 80 permaneceram até hoje um segredo ao alcance apenas dos que entendem que os verdadeiros tesouros daquela década não se revelam nas playlists saudosistas carregadas de “one hit wonders” cujos videoclips, rodados até à exaustão em canais curvados ao peso da nostalgia, parecem ter sido gravados à força no mesmo canto da memória em que uma certa geração guarda as experiências dos seus anos dourados.

Até agora, os Felt eram um ténue eco, distante, um acorde solto de uma década mágica da música envolto em reverb e já bem perto do silêncio que o esquecimento traduz. Até agora. Porque o programa de reedições "A Decade in Music" levado a cabo pela britânica Cherry Red promete reverter esse estado de coisas e devolver o grupo de "Crumbling The Antiseptic Beauty", "The Splendour of Fear", "The Strange Idols Pattern and Other Short Stories", "Ignite The Seven Cannons" e The Seventeenth Century (novo título do álbum "Let The Snakes Crinkle Their Heads to Death") a um presente que talvez seja capaz de lhes fazer a justiça que o seu próprio tempo não logrou oferecer-lhes.

Esses cinco primeiros álbuns – lançados, originalmente, entre 1982 e 1986 – compreendem a primeira parte de um duplo momento de recatalogação dos discos imaginados por Lawrence numa era em que o epicentro do abalo punk ainda se fazia sentir em réplicas profundas na cena musical britânica que entre a new wave, o lado mais experimental do pós-punk ou o movimento two-tone lá ia povoando as tabelas de vendas – mainstream ou indie – de enérgicos assaltos sonoros, bastas vezes servidos por letras que carregavam o imediatismo ideário do punk em verdadeiras listas de palavras de ordem. Os Felt eram farinha de outro saco: profundamente poéticos – como aliás os seus títulos deixam perceber –, líricos e melódicos, os homens comandados por Lawrence criavam música que não tinha real paralelo no seu tempo, pegando nalgumas das pistas menos abrasivas dos Velvet Underground para as envolver num sentir decididamente britânico e melancólico que rendeu uma discografia ímpar. Anos depois, Lawrence – em entrevista exclusiva à BLITZ – abre as portas do seu nebuloso passado e transporta-nos até este presente que, como tenta explicar-nos de forma comovente, pode ser a sua última hipótese de superar uma ingrata história de insucesso.

É assim que, de forma algo paradoxal, começa esta conversa um homem que sempre viveu atormentado por não ter alcançado a fama, mas que nunca cedeu um milímetro ao facilitismo pop que lhe poderia ter permitido atingir tal objetivo. “Tenho muito orgulho na minha obra, no meu legado. Precisei de muitos anos para transformar os Felt numa banda de culto credível. A espera pelo reconhecimento tem sido igualmente longa. Quando a banda acabou em 1989, quando deixámos de fazer discos, ninguém ligou, tínhamos muito poucos fãs. Levou muito tempo a erguer este culto credível que agora temos. Por isso, nada contra abordar o nosso passado”, admite Lawrence, de forma desarmante e honesta, numa voz delicada que parece magoada pelo peso dos anos, apesar de contar apenas 56 anos.

Ao contrário do que muitas vezes acontece nestes momentos de recuperação editorial de um qualquer passado celebrado, mas obscuro, as reedições da primeira parte da discografia dos Felt não vêm aditivadas com extras, raridades e inéditos. “Para esta série de reedições tive que voltar ao estúdio com montes de bobines de fita e também tive acesso a um cofre em que encontrei muitos masters de produção que não via há muitos anos. Houve várias maneiras de remontar estes 10 álbuns. Esta é, sem dúvida, a derradeira coleção. Duvido que esses masters voltem a ser escrutinados desta maneira”, explica o músico, dando a entender que esta será a última oportunidade de estes registos alcançarem algum tipo de notoriedade. “Para além disso, o álbum número 4 desta operação, 'Ignite The Seven Cannons', foi remisturado. Durante anos eu andei com os multipistas dessas canções de um lado para o outro porque sabia que um dia haveria de querer voltar a mexer nelas. Elas foram tão mal produzidas pelo Robin Guthrie dos Cocteau Twins que esse era um dos meus objetivos. Consegui-o agora”.

Um dos discos neste primeiro conjunto de reedições viu também o seu título ser alterado, outro gesto de correção de um passado que Lawrence quer agora que se erga à altura da sua visão de sempre. “Nesta reedição, no caso de 'Let The Snakes Crinkle Their Heads to Death' regressámos ao título original, 'The Seventeenth Century', que foi sempre o título do disco até ao dia em que estávamos a trabalhar na capa e eu, de repente, o alterei. Fiz isso num impulso, sem pensar, e desde então que me arrependo. Na verdade, o arrependimento era tal que jurei a mim mesmo que um dia voltaria a repor o título original. Sei que é algo incomum, mas não é propriamente inédito: já muitos artistas resolveram dar novos títulos a alguns dos seus discos. Algumas vezes isso acontece por vontade dos artistas, outras por vontade das editoras. Quando eu percebi que não era assim tão incomum alterar um título, decidi que o faria quando esta reedição fosse em frente. Eu sempre adorei este álbum instrumental, mas o título impedia-me de o abraçar totalmente”. Verdade reposta, portanto.

E, claro, essa foi sempre uma dimensão importante da obra dos Felt, os títulos dos álbuns e das canções. Para uma música tão densa e opaca, por vezes os títulos funcionavam como as únicas janelas por onde seria possível vislumbrar alguma luz reveladora. Sugerimos que muitos desses títulos poderiam encontrar-se numa galeria, ao lado de quadros famosos.

“Títulos de pinturas impressionistas? Sim, é uma boa ideia. Poderia ser. Sempre admirei poesia, títulos poéticos. Muito mais do que títulos rock. Os títulos dos poemas sempre me fascinaram mais. Por exemplo, 'Sunlight Bathed The Golden Glow' [do álbum 'The Strange Idols Pattern and Other Short Stories'] sempre me soou a algo que, sei lá, o Allen Ginsberg poderia ter escrito, a esse tipo de poesia. Foi sempre minha intenção que os títulos fossem importantes para que as pessoas pudessem gostar ainda mais das canções, essa era a minha ideia. 'Se lhe der um título de enorme beleza, a canção vai tornar-se ainda maior do que é'. Essa era a ideia. Funcionaria melhor do que um título simples como... a primeira frase do refrão. Há para aí tantos títulos banais que eu queria ser diferente, tentar alterar essa ordem de ideias. Os títulos são mais importantes do que se pensa e deveríamos preocupar-nos muito com eles”.

Claro que títulos como 'Evergreen Dazed', 'The World is as Soft as Lace', 'Dismantled King is Off The Throne' ou 'Whirlpool Vision of Shame' contribuíram também para a ideia de uma reputação difícil que a imprensa britânica especializada rapidamente associou aos Felt. Honesto, uma vez mais, Lawrence não tem qualquer problema em admitir o seu pretensiosismo, mas, na sua cabeça, isso não era uma coisa necessariamente negativa.

“As pessoas pensavam que éramos muito pretensiosos e ser pretensioso no rock não é algo positivo (risos)”, admite. “A maior parte das pessoas não gostam de bandas pretensiosas. E eu confesso que éramos pretensiosos, na verdade éramos pretensiosos de propósito. Por exemplo, poderia pensar-se que o Mark E. Smith não gostaria dos meus títulos, que seria contra os meus títulos pretensiosos, mas ele adorava-os. Ele também adorava a pretensão. Se decides que amas a beleza, então tens que a promover no teu trabalho. Não basta dizer algumas coisas bonitas nas entrevistas, há que prová-lo no trabalho e uma boa maneira de o fazer é dar às canções títulos bonitos, porque um título é como uma etiqueta, uma etiqueta numa camisa, num par de calças. É o que te diz exatamente o que se passa, o que é o produto. Sim, eu queria que as pessoas tivessem noção de que éramos pretensiosos e que tínhamos orgulho nisso. Mas tudo vinha do amor pela poesia”. Um amor que permanece inalterado até aos dias de hoje, na verdade.

Depois dos Felt, Lawrence lançou três álbuns como Denim nos anos 90, grupo que falhou o sucesso que Lawrence nunca teve problemas em admitir que sempre procurou de forma obsessiva. Os Go-Kart Mozart surgiram no final da década de 90 – curioso como Lawrence parece encarar cada década como um novo campo de possibilidades – e Mozart’s Mini Mart, o seu novo álbum (que é já o quarto), parece ser uma última e desesperada tentativa de alcançar a imortalidade ou, pelo menos, o justo sustento financeiro, ainda que canções como 'Facing The Scorn of Tomorrow’s Generation' revelem o verdadeiro sentimento que o anima e que também inspira temas como 'When You’re Depressed' ou 'Relative Poverty'.

“Já estava pronto há algum tempo, mas esperámos para lançá-lo ao mesmo tempo que as reedições para conseguir o máximo de impacto”, conta Lawrence. “É a minha maneira de dizer que continuo aqui, não vivo apenas do passado, também tenho ideias novas. O que quero que fique claro é que avancei como artista, não me limitei a ficar no passado. Sou um músico muito invulgar, porque a maior parte das pessoas da minha geração depende do passado de forma continuada, nunca pensam no futuro, limitam-se a tocar as mesmas velhas canções nos concertos. O negócio parece orientado para nos fazer olhar para trás. Mas eu quero olhar em frente”, elabora. “Mais ninguém da minha geração faz o mesmo. Todos reformaram os seus velhos grupos e tocam as canções antigas. As pessoas gostam mais dos Felt do que dos Go-Kart Mozart, mas tal como me levou muito tempo a fazer com que os Felt fossem apreciados, suponho que o mesmo tempo será necessário para que gostem também dos Go-Kart Mozart. Talvez o novo disco ajude, porque é um disco pop, de proporções tão altas e de fasquia tão elevada que se não resultar não sei o que mais poderei fazer. Tanto quanto consigo perceber, este é um disco para toda a gente, com grandes letras: o vinil vem carregado de texto. E depois tudo vem embalado em melodias muito ‘catchy’. É o meu derradeiro álbum pop. E só espero que as pessoas o percebam rapidamente, não posso esperar muito mais”.

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